Ceramista Mônica Falcon

Cerâmica de Alta Temperatura

Aprender a entender o barro.

Percebo no meu dia-a-dia, no atelier (e essa é uma impressão antiga) que cada vez mais os bons mestres estão se afastando do ensino, da propagação de suas técnicas.
Mestre Lelé foi para Minas Gerais e aqui em SP. perdemos um dos ícones desta arte. Outros mestres maravilhosos não querem ou não gostam de dar aula e outros ainda estão já cansados.
Janú já deu uma vida de aulas, dá até hoje e eu vejo nos olhos uma certa exaustão.
Nascem ateliers, brotam do nada aquele espaço que o “marido” montou para a esposa, ou alguem abastado montou o atelier sem sequer ter girado um torno ou realizado uma queima na vida. Então contrata-se um bom torneiro e na base da tentativa e erro das queimas talvez saiam algumas peças e na placa vem o nome “ceramista fulano de tal”.
Perde-se a origem cultural do “porque” e “como”, o aprendizado ancestral de uma das vertentes mais antigas que é a dos orientais no comando desta arte há milênios, utilizando-a quase que religiosamente na cerimônia do chá, por exemplo. O respeito e a paciência pelo fogo, pelo tempo que leva abrir o tal forno para ver então o que aconteceu, e melhor: Aprender a respeitar o porque dos resultados. A humildade em aceitar aquele momento em que houve pressa ou descaso que fica eternizada na peça como um aviso em neon dizendo e mostrando que o cuidado nos detalhes é essencial e para isso não pode haver pressa.

Alunos cada vez mais querem amassar uma bola de barro hoje e ver um vaso lindo amanhã. Tenho vontade de pedir para ir comprar ali na esquina. Bem baratinho.
Porque esta arte é cara. Girar um torno é como perceber a rotação do planeta em suas mãos, criando, subindo, descendo a massa, moldando, entre os dedos, as formas. Nas mãos, a idéia original pode até ter mudado, porque as vezes o barro pede para se prato, não bule. Não teime. aceite.
O azul pode ter virado verde, aceite outra vez.
É caro o tempo que leva aprender isso tudo.
Se vc. conhece a técnica,não existe erro; existe a não-aceitação.
Talvez por isso os mestres estejam indo embora, a emergência não combina com a cerâmica.
Não tem “corretor”, como no processador de texto. Não tem como “comprar” memória, nem barro amassado nem centrado.
Mas tem aluno que acha que isso é tarefa do mestre. Porque é pesado, cansa, a mão fica acabada e vc. transpira em cinco, dez quilos de argila. Estraga as unhas. Suja a roupa, afinal é barro.

Simples, o humilde barro das encostas dos rios, das ribanceiras distantes, vem até nós para nos ensinar a viver melhor.
Aprende quem quer.

Por
Mônica Falcon

Cerâmica feita “nas coxas”

Não, não estou fazendo nenhum tipo de crítica não, mas a frase está correta. Vou explicar.

No tempo da escravidão no Brasil, quando um escravo estava doente ou ferido e não podia ser aproveitado para os trabalhos normais, para não ficar sem nenhuma atividade era destinado à confecção de telhas de barro. Isso mesmo, aquelas telhas que são das coisas mais comuns de serem feitas com o barro. Naquela época, o escravo usava sua própria coxa para dar forma à telha. Tá dando pra imaginar, não é? Pois então, exatamente porque uma coxa nunca é igual a outra, as telhas ficavam todas diferentes, é claro. Imagine então o telhado. Daí é que vem a famosa expressão ” feito nas coxas”, que é usada para adjetivar as coisas que são feitas sem muito cuidado.

Interessante, heim?

(por Cris, Vila do Artesão)

História da cerâmica

A cerâmica é o material artificial mais antigo produzido pelo homem, existindo a cerca de dez a quinze mil anos. Do grego “kéramos”, “terra queimada” ou “argila queimada” é um material de imensa resistência, sendo freqüentemente encontrado em escavações arqueológicas.

Quando saiu das cavernas e se tornou um agricultor, o homem necessitava não apenas de um abrigo, mas de vasilhas para armazenar a água, os alimentos colhidos e as sementes para a próxima safra. Tais vasilhas tinham que ser resistentes ao uso, impermeáveis a umidade e de fácil fabricação. Essas facilidades foram encontradas na argila, deixando pistas sobre civilizações e culturas que existiram milhares de anos antes da Era Cristã.

A cerâmica é uma atividade de produção de artefatos a partir da argila, que se torna muito plástica e fácil de moldar quando umedecida. Depois de submetida a uma secagem para retirar a maior parte da água, a peça moldada é submetida a altas temperaturas ao redor de 1.000oC, que lhe atribuem rigidez e resistência, mediante a fusão de certos componentes da massa, e em alguns casos fixando os esmaltes na superfície.

Essas propriedades permitiram que a cerâmica fosse utilizada na construção de casas, vasilhames para uso doméstico e armazenamento de alimentos, vinhos, óleos, perfumes, na construção de urnas funerárias e até como “papel” para escrita.

A cerâmica pode ser uma atividade artística, em que são produzidos artefatos com valor estético, ou uma atividade industrial em que são produzidos artefatos para uso na construção civil e engenharia.

A cerâmica é muito antiga, sendo que peças de argila cozida foram encontradas em diversos sítios arqueológicos. No Japão as peças de cerâmica mais antigas conhecidas por arqueólogos foram encontradas na área ocupada pela cultura Jomon, há cerca de 8.000 anos, talvez mais.

Antes do final do período Neolítico ou da PEDRA POLIDA, que compreendeu, aproximadamente, de 26.000 a.C. até por volta de 5.000 a.C. a habilidade na manufatura de peças de cerâmica deixou o Japão e, se espalhou pela Europa e Ásia, não existindo, entretanto, um consenso sobre como isto ocorreu.

Na China e no Egito, por exemplo, a cerâmica já tem mais de 5.000 anos. Nas tumbas dos faraós do Antigo Egito, vários vasos de cerâmica continham vinho, óleos e perfumes para fins religiosos.

Um dos grandes exemplos da antiga arte cerâmica chinesa está expressa pelos guerreiros de Xian. Trata-se de uma das maiores descobertas arqueológicas, que ocorreu naquela província chinesa em 1974. Lá foi encontrado o túmulo do imperador Chi-Huand-di, que nasceu por volta do ano 240 antes de Cristo. Para decorá-lo, foi feita a réplica, em terracota, de um exército de soldados em tamanho natural. Terracota é o termo empregado para a argila modelada e cozida em forno.

A maioria das culturas, desde seus primórdios, acabou por desenvolver estilos próprios que com o passar do tempo consolidavam tendências e evoluíam no aprimoramento artístico, a ponto de poder situar o estado cultural de uma civilização através do estudo dos artefatos cerâmicos que produziam.

Estudiosos confirmam ser, realmente, a cerâmica a mais antiga das indústrias. Ela nasceu no momento em que o homem começou a utilizar-se do barro endurecido pelo fogo. Desse processo de endurecimento, obtido casualmente, multiplicou-se e evoluiu até os dias de hoje.

A cerâmica passou a substituir a pedra trabalhada, a madeira e mesmo as vasilhas (utensílios domésticos) feitas de frutos como o choco ou a casca de certas cucurbitáceas (porungas, cabaças e catutos). As primeiras cerâmicas que se tem notícia são da Pré-História: vasos de barro, sem asa, que tinham cor de argila natural ou eram escurecidas por óxidos de ferro.

Argilas

o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer
(Paulo Leminski)

Segundo Bernard Leach, em seu Manual do Ceramista: “Determinadas terras e rochas pulverizadas formam, quando combinadas com água uma massa suficientemente homogênea com a qual poderemos modelar formas chamadas de “biscoitos” ou “peças verdes”, que endurecerão pela ação do fogo, se transformando no produto chamado cerâmica”.
E ele diz em seguida: “A argila é o resultado da decomposição dos feldspatos” o que concorda com outras definições, o que acontece é a decomposição de rochas graníticas em combinação com outras impurezas, e cujas partículas deverão ser muito finas, o que lhe conferirá a característica de plasticidade necessária para a modelagem de formas quando se junta a água necessária. A fórmula química da argila pura é Al2O3 -2SiO2 -2H2O.
Existem muitas formas de classificar a argila: segundo sua origem: primárias ou secundárias; segundo sua plasticidade, em gordas ou magras; podemos também falar em argilas refratárias, argilas de cerâmica compacta, argilas de bola, e outras.
Em particular usamos esse termo como sinônimo de barro ou massa cerâmica.

Obtemos Argilas Coloridas pela adição de óxidos ou corantes, ou ainda de engobes de cores fortes (preferencialmente utilizados em consistência bem grossa e feitos da mesma argila que se deseja colorir). As duas primeiras maneiras são as adotadas com mais freqϋência, por implicar em menor adição de água.
Três modos de colorir a argila:

• deixar a argila secar totalmente, triturá-la e adicionar as quantidades de óxidos ou corantes desejadas. Adicionar água e esperar a absorção. Quando a argila tiver absorvido a água, devemos então amassá-la até conseguir uma cor uniforme.
• fazer uma bola com a argila e nela abrir uma cavidade. Colocar um pouco de água nessa cavidade e dissolver o óxido ou corante nela. Amassar a bola até obter uma cor uniforme.
• preparando previamente um engobe bem grosso com a cor desejada e misturando-o à argila da maneira descrita acima.

As maneiras mais comuns de trabalhar com argilas coloridas são:

• juntando pedacinho por pedacinho num molde, usando o torno ou usando a técnica de placas.
• Quando trabalhamos com um molde de gesso, enchendo-o com vários pedacinhos ou bolinhas de diversas cores, devemos ter o cuidado de forrar o molde com um pano úmido, e usar a ponta dos dedos, ou um pilão, para que os pedacinhos não grudem demais no molde. Isto une os pedacinhos/bolinhas e os pressiona de encontro à parede do molde.
• Trabalhando no torno, usamos uma bola de argila de diferentes cores e o resultado a que chegamos é o que chamamos de “espiralado” ou “marmorizado”.
• Resultado semelhante, “marmorizado”, pode ser obtido com a técnica de placas, se juntarmos aleatoriamente pedaços de argila de diferentes cores, amassando com a mão até formar uma bola multicor. Depois de pronta esta bola, devemos então passar o rolo nela para obtermos uma placa, modelando como desejarmos. Podemos também dar à “bola multicor” o formato de um bloco, achatando-a, formando quatro lados, até chegarmos a uma forma de “paralelepípedo”, que será então fatiada.

Observações gerais:
• corantes em quantidades menores do que 5% (em relação à quantidade de argila) resultam em cores fracas, esmaecidas.
• não manuseie os corantes sem usar máscara ou respirador.
• alguns corantes são tóxicos. Não raspe as peças quando elas estiverem secas, pois isto gera um pó fino que contém corantes e não deve ser inalado.
• use luvas de borracha quando misturar os corantes à argila, e enquanto estiver amassando a argila colorida.
• devido à toxicidade de alguns corantes, muitos ceramistas preferem trabalhar com óxidos, especialmente em peças utilitárias, que devem ser obrigatoriamente revestidas de um esmalte transparente.
• nenhuma comida ou bebida deve entrar em contato com os corantes ou com a superfície de uma peça que não leve esmalte.
• para melhores resultados com a modelagem em argilas coloridas é aconselhável o uso de massas de boa qualidade plástica.
• é possível usar diferentes argilas numa mesma peça, desde que sejam compatíveis.Isto evitará resultados indesejáveis, como rachaduras, separação das partes, bolhas de “cozimento” etc.
• quanto mais clara a argila a ser colorida, mais viva será a cor. Usando barro vermelho ou marrom, as cores serão escuras.
• evite sempre comer ou beber no ateliê, mesmo que não esteja trabalhando com corantes.

Nota:
Texto de Regina Simas, ceramista brasileira que reside e possui ateliê nos Estados Unidos, onde dá aulas, produz e comercializa peças.
Studio Simas
123 Melody Dr.
Carrollton, GA 30117 USA
(770) 214-0944

Rakú

Ao termo RAKU pode-se dar o significado de: Alegria, prazer, satisfação, felicidade, libertação ou tão simplesmente o prazer em trabalhar esta técnica de cerâmica.
A cerâmica Raku desenvolveu-se na segunda metade do século XVI e é considerada a essência da cerâmica japonesa. A técnica do Raku envolve o processo de modelagem,esmaltação e queima das peças (taças, bules e poncheiras) que se utilizam durante a cerimônia japonesa do chá .(…)
Estas peças possuem características especiais de cor e textura, que as destinguem de qualquer outra cerâmica, confeccionando-se com argilas que podem resistir a choques térmicos muito fortes. Para isso tem de possuir uma grande percentagem de chamote (entre 10 a 50%), compõem-se de argilas refratárias e de outros materiais utilizados em pastas de altas temperaturas, como o grés.Os materiais com que se podem preparar as pastas são: argila (argilas refratárias e plásticas), caulino chamote, feldspato, sílica e talco, entre outros.As argilas refratárias, o chamote e a sílica proporcionam á pasta e, em conjunto com o talco, suportar o choque térmico que se produz no momento em que se retira a peça do forno e se esfria mediante a sua introdução em água ou quando se deixa ao ar.

A resistência ao fogo vem da percentagem de caulino, feldspato e sílica. As argilas plásticas favorecem o processo de modelagem. Pode se utilizar também as pastas de grés, preparadas, ás quais se deve adicionar, caso não a integrem, a percentagem adequada de chamote. Se na preparação ainda for adicionado talco, em cerca de 5%, a pasta terá menor contração.
Os fornos de Raku não devem ser muito grandes e podem ser elétricos, a gás, a carvão ou a lenha. É preferível que possuam uma porta frontal, na medida em que as extrações das peças se torna muito mais cômoda em comparação a um forno que possua porta na parte superior.
A técnica do Raku possui dois sistemas de realização. Um, em que a peça se modela à mão, se aquece em torno do forno e, quando está seca, é esmaltada, consiste numa mono-queima. Depois deste processo, introduz-se a peça no forno, que estará a uma temperatura de não muito alta e que deve subir muito lentamente. Quando se verificar que o esmalte já se encontra fundido, extrai-se com  tenazes compridas de ferro (com cerca de 70 a 90 cm de comprimento), e deposita-se num recipiente com água ou em serragem, papéis, ervas, folhas, pequenos ramos, aparas de madeira, palha, trapos… e fecha-se hermeticamente. Estes materiais, em contato com a peça incandescente, queimam-se, produzindo uma atmosfera redutora, que influirá tanto na argila como no esmalte. Este processo pode demorar entre 5 a 15 minutos, depois interrompe-se este processo e extrai-se a peça, colocando-a num recipiente com água, que a esfriará rapidamente, podendo também ser deixada ao ar.
Temos que considerar a a  cor da argila, os esmaltes se destacarão melhor com argilas de cor branca após a queima.
Os esmaltes são de baixa temperatura e podem ser preparados á base de chumbo ou com outras fritas alcalinas. Podem ser aplicados por quase todas as técnicas (pincel, derrame, mergulho ou á pistola). As cores são feitas com óxidos. Os mais usados são, cobre, estanho e cobalto. Destes o que melhor resultado produz em redução é o cobre, que permite obter uma cor avermelhada se a redução for bem feita. Também se pode tirar partido do efeito que o esmalte faz ao esfriar.

Os resultados são sempre uma surpresa, momentos de confraternização entre ceramistas e um motivo a mais para reunir os amigos em torno de um bom forno à luz da lua. Retirar as peças incandescentes na escuridão da noite é um momento mágico.
Se vc. tiver interesse em conhecer a técnica e participar de um evento de Rakú, entre em contato comigo; no segundo fim de semana de cada mes abrimos nossos fornos para esta queima.

Mônica Falcon